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Realidade de quem necessita do Resun


Entrada principal do Resun na UFS




Construído em 1980, pelo Ministério da Educação e Cultura, sendo um projeto do governo Federal de que visava ajudar os estudantes que possuíam baixa renda, oferecendo dessa forma refeição a um baixo custo, o Restaurante Universitário (RESUN) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) resiste ao tempo, mesmo diante de um cenário de total abandono e descrédito sobre sua real função e necessidade.

Deposito da cozinha no Resun
Uma das filas que  existem no refeitório

Com uma média diária de 778 almoços em 2008 somado ao seu custo de apenas 1 real por refeição para estudantes e 2 reais para os demais, o restaurante é ponto de parada para grande parte da comunidade acadêmica. A despeito dos comentários sobre a comida, taxada como “ruim”, são muitas as pessoas que precisam daquela alimentação para encarar suas jornadas dentro e fora da universidade.
Satisfação dos que  comem no refeitório da UFS

Desperdícios achados na lateral do Resun

Guarda-volume improvisado pelos alunos
  
A realidade, entretanto, é bem mais complexa do que as analises e reportagens podem apontar. As filas são extensas e o aperto é grande, mesmo com a duplicação dos acessos e do ponto de compra. Há certos horários e dias em que as filas se confundem e fica difícil saber para onde se está indo. Alguns deixam seus pertences escorados nas paredes e espaços próximos a entrada do refeitório para não enfrentar mais uma fila e diminuir o tempo.


Guarda-volume tradicional do Resun
 Para se entrar no Resun é necessário passar por uma catraca, que apesar de não funcionar a um bom tempo, dita a ordem das filas. Ao final desse processo é necessário escolher entre as bandejas metálicas empilhadas que são usadas pelos usuários do restaurante, a que menos está em estado degradante, por serem confeccionadas em material não apropriado para receber o alimento, posto que, é de difícil higienização e por isso causa oxidação da bandeja, trazendo riscos para a saúde de quem as usa. 
A delicadeza de servir
Equipamentos sucatedos, deixados em área externa

O processo de colocação dos alimentos na bandeja já não é mais controlado pela própria pessoa, mas pelos funcionários e sua boa vontade em meio à racionalização da comida. Ao troco de alguns sorrisos e um pouco de conversa, consegue-se mais um pedaço ou dois de carne. Nas mesas, o barulho ensurdecedor de várias conversas simultâneas, o calor insuportável dos ventiladores que mal funcionam, e a solidão de muitos que comem apressados, pois já estão atrasados para seus trabalhos, estágios e aulas.
A solidão é em algumas vezes companheira no almoço
Parte interna do Resun
Refeição partilhada com os animais que habitam o Campus

  
Enquanto alguns fazem ‘cara de nojo’ e rejeitam parte da comida, os olhos atentos e ávidos de alguns visitantes de fora desejam cada pedaço, cada grão, para bicar e mordiscar do lado de fora. Os cães e pássaros ficam atentos para as bandejas e para os alimentos despejados pelas janelas e a devoram com rapidez. Para eles, o pouco, o “ruim”, é muito. Para eles, aliás como para muitos que realmente precisam do Resun, aquele alimento é tudo.
Divisão  dos restos alimenticios com os pássaros
Clique aqui para também assitir a videoreportagem feita sobre o Resun
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A "massa" feliz (ou a crônica da hipocrisia)


Peguei aquele ônibus das dez. Vazio. Tanto que deu para me sentar e vir refletindo sobre bobagens que não cabem aqui. Seguia o caminho da minha utópica Universidade que cresce enraivecida sobre planos, projetos, ganância e dinheiro. Dinheiro? Só para as obras que eles ousam edificar seus suntuosos prédios sobre pilares da degradação e do sucateamento. Onde sobram concreto, vergalhões e telhas, faltam corações, sangue e idéias.


Desço do ônibus, seguindo pela catraca do terminal, quando quase que tomo um soco no meio da cara. Um alerta daqueles que, mesmo condicionados a olhar para imenso outdoor que exalta a “Expansão Divina” criam um humilde e, porque não dizer, malfeito cartaz a lápis de cera e hidrocor com os seguintes dizeres: “Ocupe a Reitoria que há dentro de você!”. Ainda em nocaute, fico ali, parado, enquanto outros apressados com suas vidas estudantis sequer notam para o pobre cartaz. Oras, quem ligaria para ele, ou para aquela frase escrita por um bando de baderneiros quaisquer que ocuparam meia dúzia de salas na Reitoria.


O que é que isso tem a ver com a vida de todos aqueles engomadinhos que só querem tomar um suquinho de mangaba num trailer qualquer, assistir suas aulas, rezando para que chegue uma hora e ele possa voltar para casa e comer a comidinha da mamãe assistindo uma reportagem sobre a reprodução dos ursos pandas na China em pleno Jornal Hoje. Como um rebanho de desavisados eles entram e saem da universidade sem se dar conta das mudanças, sutis, porém constantes que ela passa. E não, não me refiro as obras ou qualquer expansãozinha qualquer. Refiro-me a luta daqueles que vão de contra a maré. Que dão a sua cara a tapa e se esforçam para estar ali, lutando, por algo que sequer é para eles, mas que é para o bem do próximo. De pessoas como eu, você, ou aqueles mesmos engomadinhos já supracitados, exceto pela verdadeira palhaçada que a Universidade faz com eles.


Imagine só, você sai de sua casa, no interior ou em outro estado e se presta a um teste que avalia a sua renda familiar para receber um verdadeiro “atestado de miserabilidade” para então poder estudar com a promessa de que a universidade lhe dará um suporte mínimo para que você consiga se instalar e manter seus estudos. Pois é, essa é a vida dos residentes. Ela seria tão boa quanto a minha e sua, se esse “suporte mínimo” não beirasse o ridículo. Com uma renda inferior a 500 reais cerca de nove pessoas são obrigadas a se virar e sobreviver numa mesma casa (que nem vou comentar o estado.) e pagar aluguel, água, luz e material de limpeza. Acha que consegue? Nem eles. O fato é que a essa situação caótica chegou a um ponto que eles não puderam mais agüentar. Arrebentou-se a corda da hipocrisia e os estudantes resolveram protestar.


Você deve estar pensando: “Mas que alunos malcriados, só sabem ocupar, ocupar, ocupar, porque não tentaram conversar antes?” — Ok, vamos lá... Quem em sã consciência chegaria ao extremo de ocupar algum lugar, de dormir em péssimas condições para protestar por algo se os demais meios não fossem tentados e a própria necessidade não fosse extrema?


Particularmente não sei o que é pior, se é toda essa utopia que a universidade vivencia a necessidade que os meus companheiros residentes passam ou se é o descaso daqueles que chegam até nós para abrir a boca e dizer que “a massa está feliz”... Felizes estão os hipócritas, que vivem suas vidinhas enquanto os demais sofrem. Felizes estão aqueles que são incapazes de enxergar a realidade diante de seus olhos e felizes somos nós que mesmo com tudo e todos contra resistimos juntos por acreditarmos que poderemos mudar, um dia, a hipocrisia.
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